Novos caminhos na carreira diplomática

Por Edson Valente

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Há vida profissional além do Itamaraty para quem pretende seguir o caminho da diplomacia na carreira de relações internacionais. As restritas oportunidades de trabalho oferecidas pelo Ministério das Relações Exteriores têm sido ladeadas por opções de atuação em secretarias de Estados e municípios brasileiros.

Os responsáveis por articular programas de âmbito subnacional com organizações estrangeiras são chamados de paradiplomatas. “São os responsáveis por defender interesses estaduais e municipais no exterior, relacionados a temas da alçada desses governos e prefeituras”, explica o português Rodrigo Tavares, assessor especial para assuntos internacionais do governo de São Paulo e professor do MBA em relações internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV). “Trata-se de projetos de infraestrutura, educação, saneamento e transportes”, exemplifica. Eventos como a Copa do Mundo e a Olimpíada devem abrir vagas para esses profissionais.

Contudo, “a paradiplomacia não é um termo cunhado nos organogramas”, ressalta. Embora a designação seja usada informalmente, oficialmente quem exerce as funções que definem essa especialidade tem cargo de coordenadoria ou assessoria de assuntos internacionais, caso do próprio Tavares. São profissionais concursados ou, em muitos casos, celetistas.

“Legalmente, é uma ocupação que nem poderia existir”, considera Reinaldo Dias, professor de cenários políticos globais da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “A Constituição não prevê esse tipo de relação internacional local. No entanto, há certa flexibilidade dos órgãos governamentais nessa questão, uma vez que o governo federal não consegue abarcar todas as atividades de cooperação com o exterior”, argumenta.

Essas tratativas incluem acordos para avanços tecnológicos ou culturais entre cidades de diferentes países que estejam em níveis de desenvolvimento semelhantes ou tenham particularidades afins. As atribuições mais gerais do paradiplomata não diferem muito das de um diplomata. “Levantar informações, representar o Estado ou o município, promover relações, prospectar investidores, fazer acordos”, lista Fernando Padovani, professor de relações internacionais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) Rio e da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

Se a demanda por esse profissional está em alta devido ao crescimento das interações além-fronteiras que não passam pelo controle do Estado federal, a oferta de talentos ainda não é suficiente para atendê-la – a despeito do número de cursos de formação em relações internacionais no Brasil.

Só no Estado de São Paulo, dimensiona Tavares, 5.37 0 estudantes ingressam anualmente em 34 cursos universitários de RI de 27 estabelecimentos de ensino superior. Se, em 2013, o Itamaraty abriu 30 vagas para diplomatas – não necessariamente formados em RI, uma vez que não há a exigência de ter esse bacharelado para trilhar a carreira -, com salários de R$ 13.623,19, a esmagadora maioria têm de buscar alternativas.

Companhias privadas e ONGs estão entre elas, bem como a paradiplomacia em cidades e Estados brasileiros – somente no âmbito estadual, Tavares calcula haver cerca de 400 pessoas executando as tarefas que cabem à função. No entanto, salienta Dias, muitos dos profissionais que ocupam essas posições são “improvisados”, oriundos de áreas como advocacia, administração e economia. “Os cursos formadores [de RI] não estão atentos para esse nicho e ainda mantêm o foco de atuação quase que exclusivamente no Estado federal”, diz.

Na percepção de Padovani, os próprios alunos desconhecem as possibilidades do mercado da paradiplomacia que, a seu ver, está crescendo de forma lenta, mas contínua. Ele estima que um a cada dez ou vinte estudantes opte por essa vertente da carreira. “A maioria vai atuar no setor privado, na captação de recursos em ONGs, em organizações internacionais ou  consulados estrangeiros estabelecidos aqui”, ressalta.

Apesar das semelhanças com a atividade diplomática nos moldes mais conhecidos, o trabalho do paradiplomata oferece alguns desafios distintos. “Seu perfil é mais empreendedor. Ele precisa ser inovador, proativo e não pode ser tão rígido”, ressalta Dias, do Mackenzie. Além disso, o profissional no cargo necessita de uma criatividade muito maior e seus contatos internacionais estão vinculados à atividade produtiva do município em questão. “Enquanto o diplomata tradicional leva adiante a política estabelecida pelo governo, o paradiplomata vai estabelecer essa política. Sua carreira é mais flexível em relação à tradicional, que é mais burocratizada”, afirma Padovani.

O âmbito do exercício da profissão, contudo, é mais local. O paradiplomata também viaja bastante, mas costuma morar na cidade ou no Estado que representa. Isso, de alguma maneira, impacta seus rendimentos na comparação com os ganhos do diplomata, que “recebe adicionais de instalação e moradia quando sai do país”, afirma o professor da ESPM.

Em geral, os postos subnacionais empregam jovens na faixa de até 30 anos, de acordo com especialistas na área. Os salários variam de acordo com a região de atuação. No governo de São Paulo, ficam entre R$ 3 mil e R$ 8 mil, segundo Tavares.

 

Fonte: Valor Econômico

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