Relato de uma vivência de quase 6 anos no Japão

O governo do Japão oferece seis diferentes modalidades de bolsas de estudo para estrangeiros em universidades japonesas. Até o dia 30 de maio, está aberto o processo seletivo para pesquisadores de pós-gradução. Descubra como foi a experiência de Cesar Alves Ferragi, professor de RI da ESPM, estudando por lá!

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Aconteceu. Teve um dia em que cheguei aos 25 anos. E aí veio aquela pergunta, questionando: Qual a solução criativa que dou para a minha vida? Quando a universidade termina, acaba a sequencia de semestres encadeados que dão o tom cartesiano da vida universitária. A cada semestre temos uma nova página já formatada, basta completar e ir preenchendo os espaços. A página do oitavo semestre, ao ser virada, culmina com um página em branco. Ela não termina com um ponto. Mas sim com dois pontos: e agora?

Foi nesse momento em que soube da bolsa de pesquisa do “Monbukagakusho”, do governo japonês, com possibilidade de mestrado e doutorado. A questão já começava bem: eles ofereciam passagem aérea, as mensalidades da faculdade pagas, e ainda davam uma mesada em ienes por mês para bancar as despesas da vida nipônica. Era o que um recém-formado precisava para olhar o site com mais atenção e afinco.

Estudei administração pública na FGV-EAESP e Turismo na ECA-USP. Tinha nas mãos as possibilidades inúmeras de trabalho no setor do turismo – que chega a ser mais confuso do que relações internacionais, acreditem –, de uma carreira na gestão pública, em ONGs ou até mesmo nas multinacionais sedentas por talento. Escolhi o Japão por acreditar que era a opção mais instigante e, por consequência, enriquecedora que teria naquele momento.

Aconteceu. Fiz o mestrado e o doutorado em Tóquio, ambos em administração pública, na International Christian University, com um semestre na Universidade da ONU. O mestrado focou em estudos da paz e resolução de conflitos, e o doutorado em teoria das organizações. Analisei a sociedade japonesa e o porquê do Japão ser um país tão seguro. Com o framework da teoria institucional, pesquisei o sistema de policiamento comunitário japonês aplicado à Polícia Militar de São Paulo. Foi um mergulho na vida das organizações, que rendeu ambos diplomas revalidados posteriormente pela UNESP aqui no Brasil.

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Ao longo da jornada, a sensação era a que percorria uns oito caminhos simultaneamente: aprendia o japonês, melhorava o inglês, praticava karatê, viajava pelo leste asiático, namorava, cozinhava um missô como ninguém, festejava… e estudava. Viver no Japão significou alterar meu jeito de ser. Foi começar a ser outro sendo eu mesmo. Como se o eixo dos meus óculos tivesse mudado de lugar, filtrado agora pelas lentes do oriente. Amigos de Israel, da França, da Lituânia, do Sri Lanka e do Uzbequistão faziam parte dos happy hours, das discussões acadêmicas… e dos destinos de viagem que surgiram.

Hoje, colocando no papel a experiência, me alegro com os resultados dessa jornada. Olho para trás e enxergo a beleza de ter assumido um espaço de vulnerabilidade tão enriquecedor. Não sabia – e nem poderia – mensurar as dificuldades que teria durante o intercâmbio. Mas certamente consegui assumir os riscos mágicos desse abismo desconhecido, aquele que extrapola as dimensões da zona de conforto. Foi algo que me deu lastro cultural e fortaleceu minha mentalidade global, pois agregou capital intelectual, social e psicológico a quem sou. Aconteceu.

 

Sobre o autor

zareCesar Alves Ferragi (Zare) é Doutor e Mestre em Administração Pública pela International Christian University, localizada em Tóquio, no Japão, com reconhecimento pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Bacharel em Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas, localizada em São Paulo, Brasil. Prof Dr. Ferragi se formou em Estudos da Paz e Resolução Conflitos pela Universidade das Nações Unidas, no Japão, e participou de programas conjuntos de intercâmbio e pesquisa pela Universidade do Texas em Austin, EUA; Universidad de La Habana, Cuba; Instituto Tecnólogico e Autônomo do México, México; e da Universidade de Tartu, Estônia. Atualmente é professor de Relações Internacionais da ESPM, com foco em negociação e no Leste e Sudeste da Ásia, e atua como Assessor Acadêmico de Internacionalização da ESPM, sendo o Coordenador Institucional do programa Ciência sem Fronteiras.

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2 responses to “Relato de uma vivência de quase 6 anos no Japão

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  2. Este é o relato mais inspirador que eu já li em toda a minha vida. Além de ser muito bem escrito, é extremamente criativo. Agradeço ao acaso por me dar a oportunidade de ler este.

Comentários

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