Estudar na França: novos pensamentos e multiculturalidade

O Campus France, agência de promoção de ensino superior do governo da França, divulga bolsas e guias de como estudar no país. No site também estão disponíveis informações sobre moradia, testes de proficiência, entre outros. Por que estudar por lá? O que pode ser absorvido pelo estudante de RI? Leia abaixo.

large_3483999817 Por Cecilia Baeza

 

Viver na França para adquirir conhecimentos é uma experiência única, a começar por suas idiossincrasias. O que distingue a formação acadêmica francesa das outras formações é a ênfase muito grande sobre a metodologia. A universidade francesa ensina a estruturar o pensamento.

Esse rigor metodológico é sempre um pouco difícil no começo para os estudantes estrangeiros, mas todos terminam reconhecendo a força desse modelo de ensino. Cerca de 50% da capacidade de convencer qualquer audiência da validade de um argumento vem da forma de como você é capaz de expressá-lo. A escola francesa é fantástica nesse sentido.

A cultura e a sociedade francesa, sem dúvida, irão influenciar o estudante internacional no país. O que acontece no mundo é onipresente na sociedade francesa, e é quase impossível achar pessoas que não se interessam pela atualidade internacional, ainda que seja só um pouco.

Há várias razões que explicam isso. Primeiro, a França é um país pequeno, mas muito importante no cenário político internacional: é uma antiga potência colonial com influência nos cinco continentes, em particular na África; é membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas; é potencia nuclear e membro da OTAN; e finalmente é a 5ª potência econômica mundial e membro fundador do G8. O ex-diretor da OMC era francês – Pascal Lamy – e a atual diretora do FMI é francesa – Christine Lagarde.

O segundo fator vem da sociedade: as grandes cidades francesas – Paris, Lille, Lyon, Marseille – são cidades muito cosmopolitas, com uma longa historia de ondas migratórias, principalmente da África e do Mundo Árabe – que seguem até agora. Essa diversidade cultural faz-se sentir em todos os aspectos da vida cotidiana: na comida (com pequenos restaurantes de todos os países do mundo), na música, no cinema etc. A primeira relação com as “relações internacionais” é por meio dessa diversidade cultural, porque faz parte do entorno próximo.  A revolta na Tunísia, a guerra na Síria, a intervenção no Mali, ou os protestos na Turquia não são acontecimentos distantes: você sempre vai conhecer alguém de origem tunisiana, síria, mali ou turca que vai lhe contar sua visão e a da sua família.

O terceiro fator é a localização geográfica da França: de Paris, em 3h30, você está em Moscou, em 4h30 em Damasco, em 5h40 em Bamako, em 6h50 em Teerã. Isso também é uma variável importante. Muitos jovens têm viajado e não é tão caro fazê-lo.

Tudo isso faz que a atualidade internacional esteja muito presente na política, na mídia, e mesmo na vida cotidiana. Os franceses adoram debater de tudo nos cafés, e os assuntos internacionais fazem parte dos temas que podem aparecer numa conversa. A ideia de que a França tem uma política externa original e com valores próprios – ainda que seja, muitas vezes, uma idealização – faz parte do imaginário social dos franceses.

Para os aspirantes a mestrado e doutorado, a primeira dica é começar a aprender o francês. É muito difícil chegar na França sem falar uma palavra. Claro, seu nível vai melhorar morando no país, mas é necessário ter as bases, porque é o esperado na universidade. Quase não há universidade onde você é possível fazer um mestrado ou um doutorado em inglês.

O segundo ponto tem a ver com o ensino das RI na França. Temos alguns professores que têm desenvolvido um enfoque original de “Sociologia das RI” como Bertrand Badie ou Didier Bigo, mas em geral a teoria das RI não é o ponto forte do país. A verdadeira vantagem comparativa está nos “area studies”: temos alguns dos melhores especialistas do mundo árabe, do continente africano, da Índia e da China. O Centre d’Etudes et de Recherches Internationales (CERI) é um bom exemplo disso: a maioria dos pesquisadores trabalha sobre uma região/um país em particular. A aprendizagem dos idiomas “orientais” é muito reconhecida, em particular no INALCO (Institut national des langues et civilisations orientales).

Os locais mais prestigiosos para estudar RI na França são Sciences Po Paris e a Universidade Paris 1. A EHESS (École des hautes études en sciences sociales) também pode ser uma boa opção para area studies.

 

Sobre a autora

ceciliaCecilia Baeza é pesquisadora pós-doutoral (bolsista do CNPq) no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasilia (UnB) e professora horista de Relações Internacionais na FGV em São Paulo. Entre 2003 e 2009, foi professora associada na Sciences Po Paris, onde concluiu seu Doutorado em Relações Internacionais em 2010. Suas pesquisas investigam a redefinição das políticas externas sul-americanas em relação à questão palestina a partir do início da década de 2000. Analisa também o papel das diásporas árabes, através das suas mobilizações e redes de influência. É co-fundadora da Rede de pesquisa Interdisciplinar sobre o Mundo Árabe e a América latina (RIMAAL).

foto: Anirudh Koul via photopin cc

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