Futebol e religião não se discutem. Política, SIM!

voto

Por Fábio Rua

Políticos e partidos são todos iguais: não medem esforços para conquistar o poder e para ignorar as promessas que conflitam com seus interesses por mais dinheiro e influência! Estou cansado de tudo o que está aí! Esses caras não me representam! Meu voto não faz diferença! Todos os políticos são corruptos! Meu voto será de protesto! Votarei em branco ou nulo! Ajudarei a eleger mais um palhaço para que este circo da política fique melhor caracterizado!

Frases prontas, de efeito, mas que dizem muito sobre a visão de boa parte dos eleitores brasileiros sobre a nossa classe política. Descrentes e sem memória, colocam todos no mesmo saco e preferem tocar suas vidas com axiomas próprios e distanciamento providencial.

Evidente que estou sendo simplista e certamente injusto com aqueles que tem bons motivos para justificar alguma das ideias ou atitudes descritas acima. Confesso até que faço coro com algumas delas. Mas nada disso me coloca apático, já que eu ainda acredito que a política é a melhor via para se transformar uma sociedade.

Desta forma e, sendo um admirador da democracia republicana e participativa, acho importante trazer para a discussão alguns dados e reflexões sobre a importância do engajamento político, nosso papel nas eleições de 2014 e na construção de um país governado por representantes de uma população cada vez mais inconformada com improbidades das mais diversas.

– A Lei no. 9504, de 30 de Setembro de 1997, mais conhecida como Nova Lei Eleitoral, determina que em eleições proporcionais, “contam-se como válidos apenas os votos dados a candidatos regularmente inscritos e às legendas partidárias.” Ou seja, votos brancos não são incluídos no cálculo do quociente eleitoral e, portanto, têm a mesma validade que o nulo: nenhuma. As últimas pesquisas tem indicado que por volta de 30% do eleitorado ainda não possui um candidato definido para as eleições presidenciais deste ano.  A diferença entre votar e não votar pode ser enorme.

– Quem decide as eleições não são mais as pessoas ignorantes, pobres e analfabetas dos rincões do Brasil. Pesquisa recente do Instituto Data Popular indica que o pleito deste ano terá a maior parcela histórica de eleitores entre 18 e 30 anos: 42 milhões de pessoas (32% do eleitorado) – sendo 23 milhões da classe média.  Vale destacar que os jovens de hoje são ainda mais escolarizados, conectados e contribuem mais com a renda de casa do que os das eleições anteriores.

–  Outro dado capturado de pesquisas e que indica claramente o nosso interesse e dever por um maior engajamento político é o de que a maioria dos brasileiros quer mudanças (74% segundo o Datafolha de junho).  Ser contra tudo e desejar que as coisas se alterem como num passe de mágica é no mínimo ingênuo.  Mas se não estamos satisfeitos e temos um ideal, que ele seja perseguido com informações, análise, participação e mobilização positiva.  E quando o quadro sugere mudança, ele não necessariamente aponta para a troca dos principais ocupantes dos cargos eletivos. Mas para uma reforma na maneira de fazer política, planejar e implementar prioridades.

Aproveitando o farto acesso à informação e o consequente aumento da nossa capacidade de indignação, o momento é propício para que sejamos os agentes de um processo efetivamente transformador, participativo e que espelhe o real sentimento da nossa sociedade “a tudo o que está aí” – mais uma frase pronta.

Sobre o autor

image (1)Fabio Rua é diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas da IBM Brasil. Graduado em Relações Internacionais pela FAAP, possui pós-graduação em Diplomacia Econômica pela UNICAMP e mestrado em Gestão de Negócios Internacionais pela FGV/RJ.

Leia também os artigos anteriores de Fábio:

O QUE OS LIVROS NÃO DIZEM

O PROFISSIONAL DE RI NÃO É MAIS UM ILUSTRE DESCONHECIDO

Foto de capa: ·júbilo·haku· via photopin cc

Advertisements

One response to “Futebol e religião não se discutem. Política, SIM!

  1. Grande Fábio,

    Do contra que sou, vou começar discordando do título. Acho que tanto futebol quando religião e política se discutem sim. Agora, vamos colocar a devida lenha nesta fogueira. Começando pela religião. Se o estado brasileiro [uma entidade política] se define como laico, não deveria permitir a existência de bancadas de denominação religiosa no congresso nacional. Esta permissão licenciosa se propaga até o futebol e o jogador entra em campo olhando para os céus e conversando com as entidades metafísicas da sua religiosidade. Sem sequer notar que a sua prática religiosa de caráter privado está sendo tornada pública pela transmissão a milhões de pessoas em todo o mundo. Ou talvez, sabendo sim desta publicidade e, de fato, buscando explorá-la no melhor interesse do seu credo, qualquer que seja ele. Uma total confusão ! E a apreciação da proposta política passa inevitavelmente pela discussão religiosa. Não a religião regular mas sim a secular. Aquela que molda os valores mais primitivos do comportamento. Para dar um tom mais claro a este ponto um tanto polêmico, sugiro que discussão sobre o estado resgate os conceitos tão bem descrito pelo Max Weber, que abordou de forma lapidar temas tão relacionados quanto a economia, sociologia política, religião e administração pública. Isto tudo entre 1854 e 1920. Suspeito fortemente que a propagação dos princípios Weberianos seria, isto sim, um novo alento para esta massa de 42 milhões de eleitores jovens – 32% do eleitorado -, tão desiludida com a democracia dita participativa mas que só tem permitido a participação da camarilha e seus asseclas. Por último, já que profanamos os templos sagrados da religião, política e futebol, melhor ir até o fim e cobrar o papel do setor privado e suas corporações. Manter-se ao largo destas discussões a guisa de uma imparcialidade igualitária é um posicionamento muito cômodo pois permite buscar benesses de quem se senta na cadeira do poder quando disputa termina. Benesses ao estilo de isenções fiscais e investimentos privilegiados por juros baixos. É hora da corporação assumir o seu papel na criação de algo novo, para saciar a sede e atrair este mesmos 42 milhões de brasileiros jovens, desiludidos com “tudo que está aí”. Sem este posicionamento, vamos ter que continuar convivendo com a “D. Lúcia”, que nasceu no berço da última catástrofe esportiva – futebol – , apesar das preces aos deuses – religião -. E que deve repercutir na política. Vamos pois, à discussão ! De futebol, de religião e de política. Só com ela seremos capazes de enxergar foices e martelos hoje invisíveis nas mãos da população. E por uma questão de coerência, este mesmo comentário vai para o mesmo post do International Connections.

    Parabéns pela abertura da discussão !

Comentários

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s