Eleições 2014: Tudo ao mesmo tempo, agora

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Por Fábio Rua

Gostaria de tomar emprestado este espaço para, inicialmente, prestar as minhas homenagens a Eduardo Campos, um dos mais mais promissores emissários da renovação e da esperança na política. Como todos acompanharam, seu legado foi interrompido de maneira trágica, prematura e inexplicável. Estive com ele algumas vezes e pude testemunhar seu entusiasmo, energia, coragem, serenidade e maturidade no trato de temas polêmicos e de difícil solução. Um cara jovem, com um futuro brilhante e que acreditava com todas as forças que poderia fazer diferente. Ideologias à parte, o Brasil perde um cidadão admirável, um pai de família, além de um gestor moderno, visionário e um republicano que tinha todos os elementos para contribuir de maneira sólida por um Brasil melhor.

Ao pedir permissão para deixar as emoções de lado, proponho uma reflexão sobre os efeitos políticos da alteração do quadro eleitoral para as eleições de 2014.

–  A confirmação de que Marina Silva ocupará o lugar de Campos à frente da chapa do PSB é a escolha natural.  Aproveitando seu ativo de quase 20 milhões de votos nas eleições de 2010, Marina deve ampliar a representação dos segmentos da população que desejam mudanças na forma de governar este país.  Tendo sido alçada à figura de viúva política de Eduardo Campos, só o tempo dirá se a comoção provocada pela morte do ex-governador contribuirá para robustecer ainda mais a sua candidatura.

–  Marina representa uma camada de eleitores descontentes com a chamada “velha política” e tem claro potencial para atrair votos antes declarados aos dois principais candidatos até o momento.  De toda forma, é importante destacar que ela é uma política veterana (Vereadora, Deputada Estadual, Senadora e Ministra) – e deve ser vista como tal.

–  Na primeira sondagem após a morte de Eduardo Campos, que estava na casa dos 8% de intenção de votos, Marina já apareceu com 21%.  Na decomposição deste número e, sem nenhuma base que não a minha própria análise, digo que aí estão eleitores com diversas motivações:

  • Os que votaram em Marina em 2010 e não pretendiam repetir a escolha, pois não se identificavam com Eduardo Campos.
  • Os que ficaram verdadeiramente comovidos com a morte trágica de Campos e declararam apoio à sua substituta por questões “do coração”.
  • Aqueles que acreditam que Marina levará a cabo os ideais defendidos pelo seu ex-companheiro de chapa.
  • Os que estavam indecisos ou pretendiam votar branco ou nulo e resolveram se posicionar na perspectiva de contar com Marina na disputa.

–  Da mesma forma em que a empolgante largada da candidatura de Marina Silva embola completamente o jogo eleitoral, levando a disputa a um certo, mas imprevisto segundo turno, uma série de desafios estão colocados e podem fazer toda a diferença para a eventual consolidação de sua posição:

  • Marina não é do PSB (partido de Campos), e só aceitou fazer parte da sigla para não perder relevância política após a impossibilidade de criar seu próprio partido.
  • A arrecadação do PSB é modesta e ainda não existem indicações de que a campanha mobilizará quantias mais representativas.
  • Marina precisa provar rapidamente a sua habilidade de fazer alianças, além de formalizar seu apoio aos arranjos fechados por Eduardo Campos (i.e. Rio de Janeiro e São Paulo) e que não contavam com o seu endosso.
  • O PSB terá pouco mais de 2 minutos no horário eleitoral gratuito, contra 5 do PSDB e quase 12 minutos do PT
  • Na política, assim como na física, cada ação produz uma reação. Seria ingênuo imaginar que Dilma Rousseff e Aécio Neves ficarão parados, vendo suas candidaturas ameaçadas com o eventual avanço de Marina Silva.

–  A imprevisibilidade em relação à configuração do segundo turno enseja questões cada vez mais incertas e complexas:

  • Quais são os planos de Aécio Neves para assegurar um lugar na contenda final? Se ele chegar lá, qual será a posição de Marina e do PSB em relação ao PSDB? E se for o contrário? Lembro que já havia um acordo de apoio mútuo entre Aécio e Eduardo, independemente de quem fosse disputar a presidência com a presidente Dilma Rousseff. Nada está garantido com a assunção de Marina, altamente crítica às condições do PSDB em contribuir para a renovação da política nacional.
  • Conseguirá Aécio transferir uma parcela expressiva de votos de Eduardo Campos?
  • A candidatura de Dilma já está estabilizada na casa dos 35% das intenções de voto ou a entrada de Marina na disputa pode lhe roubar uma substantiva quantidade de eleitores?
  • A piora progressiva no quadro econômico poderá prejudicar Dilma a ponto de comprometer sua reeleição? A influência de Lula junto à população ainda pode reverter tendências de queda de sua candidata?

A única certeza que tenho é que estas estão sendo as mais competitivas, imprevisíveis e emocionantes eleições da história democrática brasileira. E para quem acompanha e vibra com a política como alguns o fazem com a copa do mundo, o campeonato está apenas começando.

Sobre o autor

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Fabio Rua é diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas da IBM Brasil. Graduado em Relações Internacionais pela FAAP, possui pós-graduação em Diplomacia Econômica pela UNICAMP e mestrado em Gestão de Negócios Internacionais pela FGV/RJ.

Foto de capa: Talita Oliveira via photopin cc

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