Relações internacionais & governamentais no Brasil – aproximações

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Por Anselmo Takaki

Desde os anos 2000, podem ser vistas diversas iniciativas por parte de empresas privadas de importantes setores da economia em constituir departamentos de relações governamentais, institucionais, assuntos estratégicos, comunicação corporativa, dentre outras designações, para endereçar corretamente suas demandas ao Estado ou para atender à regulamentação imposta a seus setores. Essas iniciativas derivam do processo de consolidação da democracia no Brasil que resulta no fortalecimento das instituições públicas, o que demanda profissionalismo na condução dos processos políticos e burocráticos. Desde 2002, quando houve troca de faixa presidencial, não assistimos mais a percalços como renúncia, morte ou impeachment. Essa é uma mensagem importante no sentido de estabilização política que, por sua vez, aponta para uma segurança jurídica crucial a determinados setores da economia.

Desde então, as empresas notaram que um profissional que saiba atuar como um diplomata corporativo alinhando interesses setoriais e regulação econômica pode ser crucial para o aumento da competitividade no ambiente de negócios. Deste entendimento, ter uma estrutura de relações governamentais que modula ações políticas e ao mesmo tempo calcula impactos das políticas nos negócios poderia ser um diferencial estratégico para as empresas, posto que as instituições públicas brasileiras vêm evoluindo no sentido de transparecer regras burocráticas para contemplar princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência. Tais preceitos constam no Artigo 37o da Constituição Federal, Artigo 3o da Lei de Licitações 8.666/1993, Código de Conduta da Alta Administração Federal de 2001, a Lei Anticorrupção 12.846/2013, Lei Ficha Limpa 135/2010 além de outras iniciativas parlamentares e sociais. O aperfeiçoamento democrático é um fim em si mesmo, demanda décadas e carrega elementos de contradição e ambiguidade. É necessário tolerância diante do contraditório ou extremismos avançarão.

Os profissionais de relações governamentais possuem formação acadêmica multidisciplinar. Assim, atuam no setor profissionais formados em direito, economia, administração, comunicação social (LODI, 1986) (FIGUEIRA, 1987). Notadamente, graduados em relações internacionais se identificam muito devido ao conhecimento multidisciplinar com foco em política e ciência política. Acredita-se que relações governamentais é uma área que prescinde de uma graduação própria, exige, contudo, treino.

Além disto, o especialista em relações governamentais busca permanentemente analisar os comportamentos das instituições e instituídos para desenhar estratégia de interlocução, utilizando-se de um conhecimento tácito adquirido ao longo do tempo. Esse profissional, testemunha,  no início, relevantes negociações para um dia poder ser o negociador-chefe. A frase célebre de Polanyi (1958) “We can know more than we can tell” é a epítome para explicar o conhecimento tácito. O profissional de relações governamentais é um híbrido entre político e cientista político, o objeto de ambos é a política, mas o objetivo a ser alcançado é diferente, quando não antípoda. A ciência política utiliza ferramentas analíticas para desvendar como o poder é distribuído entre os atores do sistema. O político, mais intuitivo, de forma tácita, vai operando o sistema, com vistas a alcançar seu intento. Calibrando tais conhecimentos podemos ter um bom profissional de relações governamentais, o que exigirá treino e tempo, dado que não é nato.

A propósito de exemplificar: na série norte-americana House of Cards, o personagem protagonista Frank Underwood (Kevin Spacey) interrompe com frequência a narrativa para expressar suas confissões, convicções e intenções ao telespectador, uma espécie de eu lírico da política. Ao fazê-lo, tenta transmitir conhecimento tácito que dificilmente apareceria em algum relatório, ainda que confidencial. Interessante notar que Andréa C. J. Oliveira (2004) cita 13 características deste profissional, 10 delas podem ser adquiridas via conhecimento codificado em uma sólida formação acadêmica. Já as outras três são eminentemente tácitas: 1. discrição, 2. possuir bons contatos e 3. trabalhar as informações em defesa de seu cliente e saber como e para onde encaminhá-las.

Negociar com as esferas governamentais demanda conhecimento sobre as pessoas designadas sejam pela indicação política ou os aprovados no certame público, são todos funcionários que representam um governo, mas que possuem dinâmicas diferentes além de possuírem interesses legítimos de classe ou mesmo individuais. O trabalho do profissional de relações governamentais exige muita discrição em um ambiente com informação imperfeita – que não é pública –, e como as instituições públicas possuem certa presunção de veracidade, descomposturas ou abordagens erradas poderão gerar resistências. A pergunta que se faria é: mas a burocracia não se pauta pela legalidade, impessoalidade,…? Na lei sim, na prática pode variar.

Por isso, lidar com estas situações exige conhecimento tácito e prudência para agir dentro da legalidade, portanto não expor a empresa à qualquer contencioso que conspurque a imagem e impacte os negócios. Poderia-se dizer ainda que profissionais de relações governamentais, pelo conhecimento multidisciplinar somado ao perfil cuidadoso, não teriam muitos problemas em migrar de área, digamos sair do setor de telecomunicações e trabalhar no setor de agronegócios, pois o conhecimento tácito adquirido o balizaria para desenhar e executar grande parte das estratégias de diálogo com o vértice do processo decisório dos governos.

Outra pergunta ainda se coloca: como ingressar na área? Hoje muitos profissionais experientes estão nesta área no Brasil advindos da área jurídica, tributária, etc. E cada vez mais, as empresas têm estruturado seus departamentos para criar uma carreira própria. Estamos em plena fase de desenvolvimento destes profissionais. Hoje contamos com cursos de especialização nesta área promovidos pelo Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper) e pela  Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje). Iniciativas de agrupar os profissionais de relações governamentais já são realidade: Associação Brasileira de Relações Institucionais e  Governamentais (Abrig) fundada em 2007; Instituto de Relações Governamentais (Irelgov) fundado em 2014 e Associação Brasileira de Relações Governamentais  (Aberje) fundada também em 2014. Já os cursos de graduação em relações internacionais direcionam os estudos para relações governamentais internacionais, tratando temas mais complexos, que valerá artigos específicos para delinear as barganhas entre diplomacia e política doméstica (PUTNAM at al., 1993) somado à dinâmica global de certas multinacionais.

Não pretende se exaurir o tema na discussão do perfil profissional de relações governamentais, mas ela remete a questões básicas, e ainda frágeis, da democracia Brasileira: legitimidade, representação e transparência.

A opinião aqui publicada é de exclusiva responsabilidade do autor e não reflete a posição da(s) empresa(s) ou das instituições a ele relacionadas.

10645222_10203959856133487_1614123162156273857_nSobre o autor

Anselmo Takaki é graduado em relações internacionais (UNESP), foi aluno intercambista na Universidade de São Paulo (USP). Estudou política científica e tecnológica na UNICAMP. Experiência em relações governamentais desde 2007 atuando na Prospectiva Consultoria, Motorola Mobility e Samsung Electronics. É membro-fundador do Instituto de Relações Governamentais (Irelgov).

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Foto de capa: vgm8383 via photopin cc

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