Como se tornar um diplomata internacional?

8656677764_8457e135a1_b

Por Gilberto M. A. Rodrigues, autor do livro Organizações Internacionais*

Qual a diferença entre diplomata e diplomata internacional? O diplomata serve a um país, exerce representação perante outro Estado ou junto a uma organização internacional (OI). Já o diplomata internacional não representa nenhum país – ele trabalha em uma organização internacional e atua em prol do multilateralismo.

Quando o internacionalista imagina qual carreira poderia seguir, muitas vezes ele não tem uma noção clara sobre as possibilidades de ser um diplomata internacional. O que se espera de um diplomata internacional que atua numa organização internacional intergovernamental é bem diferente do que se pede a um diplomata nacional.

Um diplomata internacional pode atuar em organizações de cooperação internacional política (ONU, OEA etc.) ou técnica (OMC, OMS, UNESCO etc.) ou em organizações de integração regional (Mercosul, Unasul, União Europeia etc.). As organizações internacionais tem missões e narrativas diferentes dos Estados. Essas missões e narrativas refletem objetivos que estão acima dos Estados, e devem sempre contar com seu apoio, mas não raro são implementadas com algum tipo de resistência – quase sempre velada – de seus próprios membros.

Uma das principais características do diplomata internacional é que ele não representa o interesse de seu Estado ou de qualquer outro. A isenção é uma das virtudes e obrigações funcionais dos diplomatas internacionais. Um diplomata internacional de origem francesa ou americana não pode e não deve favorecer os interesses ou a visão de seu país dentro da OI. Mas será que isso não ocorre na prática? Mesmo que um diplomata internacional aja com a maior isenção e honestidade intelectual, sua origem e formação sempre irão influenciar sua visão de mundo. Isenção não é a mesma coisa que neutralidade… Por isso os países desenvolvidos sempre tratam de ter e manter seus nacionais trabalhando nas OIs.

O diplomata internacional não representa o interesse de seu Estado ou de qualquer outro.

Nesse ponto, o Brasil está muito aquém de sua projeção internacional e o Itamaraty só recentemente começou a dar importância a apoiar brasileiros/as para trabalhar em organizações internacionais. Até pouco tempo, muitos internacionalistas brasileiros/as preferiam ser diplomatas nacionais, pela estabilidade na carreira, pelo bom salário, pelo status social e pelo prestígio que a diplomacia brasileira tem dentro e fora do Brasil. Mas isso também se deve ao desconhecimento sobre as oportunidades que a diplomacia internacional oferece.

Ser um diplomata internacional significa ser um burocrata internacional? Sim e não. A palavra burocrata tem um tom pejorativo que impede medir bem sua importância. Cuidar dos processos internacionais, das negociações, das conferências, das pesquisas e estudos sobre questões regionais e globais são parte da atividade profissional do burocrata internacional. Todo esse trabalho, além de importante, pode ser muito estimulante e dinâmico, isso depende da visão de quem o exerce. Pode haver também muita adrenalina no trabalho de campo, como no trabalho com refugiados e no apoio a crises humanitárias – Sergio Vieira de Mello é o maior exemplo dessa atuação.

Quais seriam as formas de se trabalhar numa OI? Há várias possibilidades: 1) voluntário (a ONU tem um Programa de Voluntariado); 2) estagiário (O Banco Mundial, o BID, a ALADI, a União Europeia tem programas de estágio); 3) consultor técnico (temporário, para um fim específico); 4) funcionário do quadro permanente internacional; 5) funcionário do quadro local (na representação dentro de seu próprio país); 6) dirigente eleito (com mandato – usualmente proposto por um Estado membro); 7) árbitro/juiz (em tribunais administrativos e judiciais); 8) membro de comissão (com mandato – proposto por um país ou escolhido pelo secretário-geral); 9) assessor especial ou relator de um tema específico, normalmente indicado pelo secretário-geral (com mandato); 10) integrante de missão militar, sob mandato da ONU ou da OTAN; 11) representante da sociedade civil ou do setor privado de alguma entidade (associação, rede, universidade etc.) em órgão de assessoramento, consultivo ou comissão internacional.

Como se vê, as possibilidades da diplomacia internacional são variadas, há enorme riqueza profissional a partir da atividade das OI. Vale a pena conferir e, quem sabe, se candidatar.

*Sobre o autor

Gilberto M. A. Rodrigues é professor no Curso de Relações Internacionais e na Pós graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC (UFABC). Já estagiou na ALADI, em Montevidéu, atuou como consultor do PNUD (ONU) e é membro do Grupo Consultivo da Sociedade Civil (ConSoc) do BID-Brasil. É autor do livro Organizações Internacionais (São Paulo: Moderna, 2014).

Imagem de capa: CIDH Presenta Informe Anual ante la Comisión de Asuntos Jurídicos y Políticos via photopin (license)

Advertisements

Comentários

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s